29.11.12

A Vaquinha e o Burrinho do Presépio

E, de repente, um burro e uma vaca passaram a ser o centro do presépio. O presépio – que, pelo falso pudor de não ofender as crenças (ou falta delas) dos outros, havia sido retirado das montras e dos postais; que, pelo marketing de uma famosa bebida gaseificada, havia sido substituído por um homem de barbas brancas e trajes vermelhos cruzando os céus num trenó; que, contrariamente à pobreza que ele mesmo representa, havia sido substituído por luzes e bolas brilhantes de anúncios comerciais incentivando ao consumo – é, agora, debatido pela presença, ou não, de um burro e de uma vaca.
De repente, a figura central do presépio deixou de ser um menino nascido com o desígnio de morrer por nós, demonstração da que Deus continua a depositar, sempre, no homem, para dar lugar a um burro e uma vaca.
De repente, um coro de críticas se levanta contra um texto que ainda não foi lido, transmitido de forma duvidosa e sensacionalista por alguns meios de comunicação social, mas que, por ter sido escrito pelo Papa, já merece, natural e indubitavelmente, uma crítica feroz, mordaz e, sem dúvida, necessária, de forma a manter-se ausente do presépio o seu elemento fulcral.
Não saberemos, ao certo, qual a razão para tanta crítica. Chegou a haver quem dissesse que, em tempos de crise, o Papa não deveria referir que burros e vacas não são, à luz das Escrituras Sagradas, figuras presentes no nascimento de Jesus. Como se a esperança do Homem estivesse num burro ou numa vaca, mais do que naquele Menino Jesus. Será o texto do Papa uma ofensa directa a associações de criadores de burros e de vacas? Será que o texto do Papa coloca em causa as indústrias produtoras de presépios que, assim, veriam os seus lucros baixar pela perda de duas peças?
E o comboio? Que se diria do Papa se ele afirmasse que não havia comboios no presépio? Que também ele era contra o TGV? E a típica portuguesa com cântaro a ir à fonte buscar água? É mais do que óbvio que podia haver uma portuguesa no presépio. Há sempre um português em qualquer parte do mundo! E a banda de música? Sim, a banda de música típica de Barcelos, porque não podia estar em Belém? E a figurinha da igreja? Coisa tão anacrónica como o comboio num quadro que se pretende ser uma representação da Palestina do Século I. Porque não uma igrejinha branca com o seu campanário à semelhança de tantas outras igrejas portuguesas dos finais de oitocentos? No entanto, de que valem todas estas figuras se não for para nos lembrarem que no centro, mesmo no centro do presépio, não estão o comboio, a igreja, a banda de música, as ovelhinhas, a portuguesa a ir buscar água mas, sim, um Menino que nasceu?
É óbvio que se fosse um escritor de mente aberta e descomprometida, se fosse um historiador ateu, agnóstico ou mesmo cristão não católico, mas não o Papa, a dizer que no Novo Testamento não há referências a um burro e uma vaca, meio mundo se levantaria e criticaria a iconografia promovida pela Igreja Católica durante largos séculos. Mas foi o Papa e ao Papa parece não ser permitido conhecer as escrituras.
É certo: o Papa diz que, de facto, no Novo Testamento não há referências a um burro e a uma vaca no presépio. Também escreve, de passagem, outras coisas.
O Papa compara o facto de não ter havido lugar para os pais de Jesus na estalagem e de, por esse motivo, Jesus ter nascido num estábulo, com a sua crucifixão: “Ele, que foi crucificado fora da cidade também veio ao mundo fora da cidade”, diz Bento XVI.
O Papa, seguindo Sto. Agostinho, compara a manjedoura com um altar. Tal como os animais vão comer à manjedoura, também ali encontramos nós a representação do Pão da Vida. Compara, ainda, as faixas com que Maria envolveu o menino com as faixas em que o corpo do crucificado foi sepultado.
O Papa revela-nos uma provável origem para a presença da vaca e do burro, assim como uma proposta de análise do seu simbolismo, glosando passagens do Antigo Testamento, nomeadamente de Isaías, de Habacuc (numa versão que, para informação dos distraídos e espanto dos incréus, é diferente da versão constante de Neo Vulgata) e do Êxodo. Junto à manjedoura, representação da Arca da Aliança, uma vaca (ou boi, na leitura original) e um burro, representação dos dois querubins, “revelam e escondem [simultaneamente] a presença misteriosa de Deus”. Neste quadro encontra, ainda, a universalidade do cristianismo: Jesus nasceu para Judeus e Gentios, uma dualidade sempre tão complexa para o povo de Abraão.
A comparação da exclusão a que Jesus esteve sujeito no nascimento e na morte, a comparação da manjedoura com o altar ou com a Arca da Aliança e a representação da universalidade do cristianismo no presépio, são ideias sumamente mais interessantes do que tantas linhas que por aí se escreveram. São uma análise do simbólico nas Escrituras. Uma análise exegética, é certo, mas uma leitura possível. Mircea Eliade, Lévi-Strauss ou Moisés Espírito Santo fariam outras. A Joseph Ratzinger não lhe será permitida a sua?
E para aqueles que, de alguma forma, se sentiram incomodados ou defraudados com aquilo que foi dito sobre o livro do Papa, termino com palavras do Papa nesse seu mesmo livro: “Nenhuma representação do presépio está completa sem a vaca e o burro”.

Nota: as traduções do original em inglês para português são da responsabilidade do autor deste texto.

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